Utilização dos Serviços de Saúde em tempos de Covid-19

Passadas cinco semanas, e com mais de 170 mil questionários preenchidos, o Opinião Social do Barómetro Covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública focou a sua análise nos cuidados de saúde em tempos de Covid-19. A análise apresentada diz respeito maioritariamente às respostas reportadas entre os dias 10 e 24 de abril, sobre a forma como foram realizadas as consultas médicas, utilizada a urgência e efetuados os tratamentos.

Quando questionados sobre a necessidade de uma consulta médica durante o período de COVID-19 (n=4991), 75,3% dos respondentes referiu não ter necessitado e 24,7% ter necessitado. Das 1234 pessoas que reportaram ter necessitado de consulta médica, mais de metade (57,6%) não a teve, ou porque os serviços a desmarcaram (35,2%), ou porque o próprio preferiu não ir (22,4%). Os restantes respondentes tiveram a consulta, quer presencialmente (21,2%), quer à distância (21,2%).

 

 

Verifica-se que, comparativamente com as mulheres, são os homens que mais reportam não ter tido consulta, apesar da diferença ser ténue. É ainda de referir que 73% dos idosos não tiveram consulta, dos quais 70% foi porque os serviços desmarcaram e 30% por decisão própria.

“Esta é uma conclusão importante, uma vez que se trata de um grupo de risco para a COVID-19 e é natural que tenham aderido mais às medidas de confinamento. Não nos podemos é esquecer que é precisamente este grupo quem mais precisa de cuidados de saúde”, explica Sónia Dias, coordenadora científica do Opinião Social.

Ao analisar esta questão em função do escalão de rendimento, observa-se um gradiente social em que, tendencialmente, é nos escalões mais baixos que se verificam proporções maiores de pessoas que, tendo necessidade, não tiveram consulta.

Quanto à autoperceção de gravidade do motivo da consulta, os dados revelam de forma muito destacada que são 62% das pessoas que foram presencialmente às consultas quem reporta considerar o motivo grave, comparativamente a 13% dos respondentes que decidiram não ir à consulta e que consideravam igualmente o motivo grave.

Das 186 pessoas que reportaram ter dois ou mais problemas de saúde (morbilidade múltipla) e que necessitaram de consulta, 62% não a tiveram, comparativamente a 53% das que têm apenas um problema de saúde. Numa análise mais aprofundada sobre as pessoas com morbilidade múltipla, 71% das que não tiveram consulta foi por desmarcação por parte dos serviços e 29% foi por iniciativa própria.

São as pessoas que foram presencialmente à consulta quem sente menor risco de desenvolver doença severa ou complicações em caso de contrair COVID-19, quando comparadas com as que decidiram não ir à consulta (43% e 36% reporta risco baixo ou nulo, respetivamente).

Relativamente às consultas médicas que os respondentes realizaram durante este período de COVID-19, as das especialidades de Psiquiatria, Reumatologia e Endocrinologia são aquelas que se realizaram mais frequentemente à distância. Por outro lado, as especialidades de Pediatria, Ortopedia e Ginecologia/Obstetrícia são as que mais realizaram consultas de forma presencial. Em relação à não realização de consulta, as especialidades de Oftalmologia, Dermatologia e Otorrinolaringologia são as que apresentaram mais desmarcações, quer tenha sido por iniciativa do próprio ou do serviço de saúde.

Relativamente aos Cuidados de Saúde Primários, 56% das consultas médicas da especialidade de Medicina Geral e Familiar (médico de família) foram realizadas (27% presencialmente e 29% à distância), enquanto 21% foram desmarcadas pelo próprio e 23% pelo serviço.

Quando questionados sobre a necessidade de ir à urgência em tempos de COVID-19, 94,9% refere não ter necessitado e 5,1% ter necessitado. Das 254 pessoas que reportaram ter sentido esta necessidade, mais de um terço decidiu não ir (34%).

 

 

São os idosos (45,5%) quem mais reporta não ter ido às urgências, em comparação com as pessoas de idades inferiores (29,8% dos 26-45 anos e 28,9% dos 46-65 anos).

Os dados revelam também que 80% das 166 pessoas que reportaram ter ido às urgências consideravam o motivo grave. No entanto, dos 82 respondentes que decidiram não ir, 31 percecionaram que o motivo era grave. Ainda entre as pessoas que reportaram não ter ido às urgências, os problemas de saúde mais referidos foram doença cardíaca, diabetes e doença respiratória.
Uma leitura mais detalhada dos dados quanto à morbilidade revela que a morbilidade múltipla parece não ter influenciado a ida às urgências, não havendo diferenças entre pessoas com um problema de saúde e pessoas com dois ou mais.

Quando questionadas sobre a necessidade de fazer um tratamento num serviço de saúde em tempos de COVID-19, 93% dos respondentes refere não ter necessitado e 7% ter necessitado. Das 350 pessoas que referiram ter precisado de fazer um tratamento, cerca de 34% não o fez porque o serviço desmarcou e 28% porque o próprio decidiu não fazer. De referir que 37% fê-lo presencialmente.

 

 

São mais as mulheres quem reporta não ter feito tratamento (63,7% comparando com 59% dos homens). De entre os que não fizeram tratamento, são mais os homens que não fizeram por decisão própria (34% comparando com 25,8% das mulheres), enquanto que nas mulheres foi mais por desmarcação do serviço (37,9% comparando com 25% dos homens).

Embora com ligeiras diferenças, são também os idosos (67,7%) quem mais reporta não ter feito o tratamento, em comparação com as pessoas mais jovens (59,9% – 26-45 anos; 63,4% – 46-65 anos).

Uma análise mais atenta das pessoas que fizeram o tratamento presencialmente revela que cerca de 70% consideraram grave o motivo para o tratamento.

À semelhança do que acontece na utilização das urgências, no que respeita a ter feito tratamento também não existem diferenças entre participantes com e sem morbilidade múltipla.

Relativamente ao consumo de ansiolíticos e antidepressivos durante o período de COVID-19, 83% dos respondentes reporta não ter tomado nenhum destes medicamentos. Das pessoas que referem tomar atualmente este tipo de medicamentos, 14% iniciou a toma durante o período de COVID-19, 9% aumentou a dosagem e 77% não alterou a forma como o faz.

 

 

São as mulheres que mais tomam ansiolíticos e antidepressivos (19% comparativamente a 12% dos homens). Quando analisado o consumo por escalão etário, verifica-se que são os idosos quem mais consome (34% dos idosos, 23% – 46-65 anos; 14% – 26-45 anos; 9% – 16-25 anos). De referir ainda que são os mais jovens (16-25 anos) quem mais refere ter iniciado a toma durante este período e os idosos quem mais aumentou a dosagem.

De salientar que, com o passar das semanas, se assiste a um crescimento do nível de confiança das pessoas no que diz respeito à capacidade de resposta dos serviços de saúde à COVID-19. Se na Semana 1 apenas 9,4% das pessoas estava muito confiante, esta percentagem mais do que duplicou na Semana 5 (21,6%). De referir também que, atualmente, apenas 14% das pessoas está pouco ou nada confiante, quando na primeira semana mais de um terço de todos os respondentes reportava estar pouco ou nada confiante.

 

 

 

CONSULTE

Ficha do Questionário Opinião Social | Opinião Social no Diário de Notícias (Semana 5)

 

FIQUE A PAR DOS RESULTADOS DO OPINIÃO SOCIAL

Semana 4 | Um mês de confinamento: o que mudou na perceção dos Portugueses?
Semana 3 | Como se sentem os Portugueses em tempos de pandemia?
Semana 2 | Perceção individual do risco de contrair Covid-19
Semana 1 | Quem está em casa, saindo somente em situação de absoluta necessidade?