Perceção individual do risco de contrair Covid-19

ENSP-NOVA

Com 157.972 questionários preenchidos, a análise do Opinião Social do Barómetro Covid-19 revela que quando falamos em perceção de risco, os Portugueses têm dois pesos e duas medidas.

 

 

“A grande maioria das pessoas considera que o risco da COVID-19 para a saúde da população é substancialmente maior do que o seu risco individual de contrair a doença”, explica Sónia Dias, coordenadora científica do Opinião Social, o questionário semanal que acompanha a evolução das perceções dos cidadãos sobre a pandemia.

Quase metade dos respondentes perceciona ter um risco moderado de contrair COVID-19 (44,4%), no entanto uma proporção substancial considera ter risco baixo ou nulo (34,6%), e 21% considera ter risco elevado.

De entre as pessoas que se consideram em risco moderado, aproximadamente 87% considera que o risco para a saúde da população é maior do que o seu risco. Mesmo nas pessoas que sentem que têm um risco baixo ou nulo de contrair COVID-19, mais de 80% considera que o risco para a saúde da população é elevado.

Não se encontram diferenças significativas entre homens e mulheres, mas à medida que a idade aumenta, aumenta também a perceção de risco elevado de contrair COVID-19. São as pessoas que vivem no Centro e no Norte que percecionam estar em maior risco, “o que poderá estar relacionado com os focos nestas regiões no início da pandemia”, contextualiza a investigadora.

São as pessoas que fazem parte de um grupo profissional em maior risco (ex. médico, enfermeiro, farmacêutico, técnico de diagnóstico e terapêutica, força de segurança, meio de socorro, operador de supermercado, entre outros) e as que moram com alguém desse grupo quem, de forma destacada, perceciona um maior risco de contrair COVID-19.

No entanto, uma percentagem significativa de profissionais em maior risco considera ter um risco baixo ou nulo (14,5%), pelo que “importa perceber quem são estas pessoas e que práticas adotam que justifiquem a perceção de pouco risco, ou se pelo contrário, estaremos perante situações de perceção incorreta de risco”, avança a coordenadora.

Também a perceção de risco se associa fortemente com a condição de saúde individual, quer em relação ao estado de saúde geral, quer ao reporte de problemas de saúde específicos.

“As pessoas que reportam mau ou muito mau estado de saúde e as que referem ter maior número de doenças, são as que sentem maior risco de contrair COVID-19”. Mais de um quarto das pessoas que reportam ter uma doença respiratória, cardíaca, oncológica, autoimune ou diabetes perceciona-se como tendo um risco elevado de contrair COVID-19.

Por outro lado, mais do que o tipo de problemas de saúde, verifica-se que a morbilidade múltipla acentua a perceção de risco elevado das pessoas. Cerca de 55% das pessoas com vários problemas de saúde reporta risco elevado, em contraste com 19% das pessoas que não reporta problemas de saúde.

“Parece haver uma relação entre o nível de confiança nas autoridades de saúde e governamentais e a perceção de risco de contrair COVID-19”, adiantam os investigadores. Segundo o estudo, quem considera que as medidas veiculadas pela Direção-Geral da Saúde são pouco ou nada importantes, auto perceciona um maior risco. A análise mostra também que são as pessoas que se sentem pouco ou nada confiantes na capacidade de resposta do governo à pandemia, quem perceciona maior risco de contrair COVID-19.

Finalmente, as pessoas que se sentem mais ansiosas, agitadas, em baixo ou tristes percecionam um risco maior de contrair COVID-19. Quanto maior a frequência dos dias em que se sentem assim, mais elevado o risco percecionado. “Os dados relativos à Saúde Mental são um ponto que nos está a deixar a todos inquietos”, revela Sónia Dias, adiantando que já está em curso uma análise mais pormenorizada desta temática.

 

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