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Semana 7: Outra crise, a mesma geração

É o grupo etário mais afetado pela suspensão da atividade profissional, com a perda de rendimentos mais significativa, e que mais tem que trabalhar no local no trabalho, expondo-se ao risco de covid-19. O grupo entre os 26 e os 45 anos foi alvo da análise do Opinião Social do Barómetro Covid-19 desta semana, que foi ver como a geração há 10 anos apelidada de “à rasca”, está a lidar novamente com a crise.

Segundo os dados da Direção Geral da Saúde no dia 12 de maio, 27.913 pessoas tinham contraído covid-19 em Portugal e destes, 31% são pessoas com menos de 40 anos. A taxa de crescimento média do número de novos casos de maio é bastante inferior à observada em abril, indicando uma desaceleração do contágio. Tendo Portugal iniciado o desconfinamento gradual há 2 semanas, a partir dos próximos dias podemos começar a avaliar o seu efeito epidemiológico. Mas olhando para o contexto internacional, vemos que os países europeus que começaram o levantamento de medidas de restrição primeiro que Portugal, como a Noruega, Áustria e República Checa, estão entre os países que atualmente apresentam as menores taxas de crescimento média do número de novos casos.

 

Taxa de crescimento média do número de novos casos em %

 

Estes dados são animadores e dão-nos esperança de que o nível de transmissão da Covid-19 poderá manter-se baixo com as medidas de desconfinamento. Mas quanto aos efeitos que as medidas de combate à covid-19 estão a ter na população portuguesa, os dados do “Opinião Social” revelam que estes são profundos e estão a agravar as desigualdades já existentes.

Após sete semanas de inquérito, e com cerca de 180 mil questionários preenchidos, o “Opinião Social” focou a sua análise esta semana nas desigualdades sociais em tempos de covid-19 nas pessoas dos 26 aos 45 anos.

Num momento em que já se faz sentir uma crise económica e social, importa perceber como as gerações em idade ativa (até aos 45 anos) estão atualmente a ser afetadas. Há 10 anos, numa altura em que davam início à sua vida profissional, estas pessoas foram fortemente afetadas pela crise que envolveu o resgate da Troika, ficando apelidadas inclusivamente de “geração à rasca”. Volvida uma década, volta a enfrentar o peso de mais uma crise, cujos efeitos continuarão a ser sentidos nos próximos anos.

Quando questionados sobre a perda de rendimento durante o período COVID-19, 43% dos respondentes refere tê-lo perdido parcialmente ou totalmente. São as pessoas com rendimento inferior quem sofreu mais – 25% das pessoas com rendimento até 650€ perdeu-o totalmente e cerca de 39% perdeu-o parcialmente.

 

Focando a análise nas pessoas com 26-45 anos, são estas quem mais reportam ter perdido rendimento (48%). Ainda neste grupo, uma em cada três pessoas que suspendeu a sua atividade perdeu totalmente o seu rendimento e mais de metade perdeu-o parcialmente.

São também as pessoas a trabalharem por conta própria quem mais suspendeu a atividade (48%, comparativamente a 17% dos que trabalham por conta de outrem) e quem mais perdeu rendimento (37% perdeu-o totalmente, comparativamente a 2% dos que trabalham por conta de outrem). O que sugere que a estabilidade no vínculo laboral poderá, em parte, estar associada a menor perda de rendimento.

Sobre as pessoas em idade ativa, e analisando a forma como estão a desenvolver a atividade profissional durante o período de COVID-19, uma em cada quatro pessoas com 26-45 anos reporta ter suspendido a atividade. São os que reportam ter menor rendimento quem mais suspendeu a sua atividade: 49% das pessoas que aufere até 650€ suspendeu a atividade profissional durante o período COVID-19, proporção que diminui com o aumento do escalão de rendimento.

Importa ainda referir que 35% das pessoas com idades 26-45 anos refere ter de ir para o seu local de trabalho. E são estes quem também se sente em maior risco de contrair a covid-19: cerca de um em cada dois perceciona-se em risco elevado, comparativamente a 13% em teletrabalho.

Quanto ao estado de ansiedade das pessoas com idades entre os 26-45 anos, cerca de 1 em cada 3 refere sentir-se ansioso ou agitado todos, ou quase todos, os dias. São os que trabalham no local de trabalho, com contacto com o público ou colegas, quem se sente ansioso mais frequentemente (34% reporta sentir-se assim todos ou quase todos os dias, comparativamente a 24% dos que estão em teletrabalho) e são também os que perderam totalmente o rendimento quem se sente do mesmo modo (40% comparativamente a 22% dos que não perderam rendimento).

Vemos que, por razões diferentes, mas muitas vezes simultâneas, as pessoas sentem-se agitadas e ansiosas, quer por terem de se expor a maior risco, nomeadamente ao sair de casa para ir para o local de trabalho onde têm de contactar com colegas ou com o público, quer pela preocupação face à deterioração da sua situação económica.

Estes dados mostram que a crise da Covid-19 afeta de forma desigual a população, com particular impacto nos grupos mais jovens. A geração com 26-45 anos em particular está a ser mais afetada pela suspensão da sua atividade e teve a perda de rendimento mais significativa. Aliada à vulnerabilidade social e económica, este grupo continua a ser o que mais está a sair para ir para o local de trabalho, com contacto com o público ou colegas, estando assim em maior risco de exposição à Covid-19. Ainda para mais quando neste grupo estão precisamente os pais das crianças que brevemente irão voltar às creches.

São necessárias medidas de apoio social e económico para mitigar os efeitos da crise, particularmente neste grupo, que vê deteriorada a sua situação socioeconómica, mas que representa parte importante da “força motora” para superar a crise nos próximos tempos.

 

CONSULTE

Ficha do Questionário Opinião Social | Opinião Social no Diário de Notícias

 

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