Como se sentem os Portugueses em tempos de pandemia

Com 82% dos respondentes a reportar efeitos negativos na sua saúde mental, o Barómetro Covid-19 aprofundou o tema e quis saber como estão os portugueses a lidar com o período que estamos a viver. Praticar atividade física e realizar atividades que proporcionam prazer parece ajudar na gestão da ansiedade, mas os investigadores alertam para o possível aumento do consumo de comida calórica, tabaco e álcool. São as mulheres, as pessoas em teletrabalho e os trabalhadores que suspenderam a atividade profissional os grupos que suscitam maior preocupação.

Os 160.157 questionários do “Opinião Social” respondidos entre os dias 21 de março e 10 de abril mostram que um quarto dos respondentes considera sentir-se agitado, ansioso, em baixo ou triste “todos os dias” ou “quase todos os dias”. Também 55% dos participantes admite que se tem sentido assim “alguns dias”. São os homens quem menos reporta sentir-se ansioso ou triste. Aliás, 27% dos homens refere que “nunca” se sente assim, comparativamente a apenas 15% das mulheres.

 

 

“Quando olhamos para a distribuição por grupo etário, destaca-se que são os idosos quem se sente, com menor frequência, agitado, ansioso ou triste quando comparados com a população entre os 26 e os 65 anos”, explica Sónia Dias, coordenadora científica do estudo, “o que nos pode levar a pensar que as medidas de confinamento e distanciamento social estão a ter mais impacto psicológico no grupo populacional que tende a ser mais ativo profissionalmente e que também reporta maior receio de perder o seu rendimento.”

 

 

É ainda de realçar que as pessoas que se têm sentido mais ansiosas ou tristes apresentam menores níveis de confiança na capacidade de resposta dos serviços de saúde e também se sentem em maior risco de contrair COVID-19.

Numa análise mais aprofundada, 38% dos inquiridos revela sentir-se mais agitado ou ansioso comparativamente com o período antes da COVID-19. Também quase um terço reporta problemas relacionados com o sono, 25% sente que não consegue fazer tudo o que tem de fazer e 23% diz estar sempre a pensar em COVID-19. São os homens que mais frequentemente reportam não ter sentido nenhuma alteração em relação ao período anterior (25% dos homens, em comparação com 14% das mulheres).

Em suma, 82% dos respondentes sente pelo menos um dos possíveis efeitos negativos na sua saúde mental, desencadeado pelo período que vivemos.

 

 

Em relação ao que as pessoas têm feito para lidar melhor com a situação atual, de forma muito destacada, salienta-se o facto de os respondentes manterem o contacto com os familiares e amigos, mesmo que à distância (80%). Mais de metade dos respondentes procura manter rotinas para os seus dias e aproveita o tempo também para fazer coisas que gosta. É de realçar que cerca de 45% refere que limita a quantidade de informação que vê sobre COVID-19.

É necessário realçar que existem grupos específicos que poderão estar a ter uma dificuldade acrescida para lidar com estes tempos de distanciamento social e isolamento. “Uma percentagem de participantes, que nos chama a atenção, revela que aumentaram os comportamentos prejudiciais à sua saúde, dado que 16% admite comer mais doces, gorduras ou comidas mais calóricas e 8% reconhece estar a fumar mais ou a beber mais álcool.” – refere Sónia Dias.

Quando analisados os níveis de ansiedade evidencia-se que quem adota comportamentos prejudiciais para a saúde reporta sentir-se ansioso com mais frequência. No sentido inverso, as pessoas que praticam atividade física e quem ocupa o tempo em casa também com atividades que lhe dão prazer são quem refere sentir-se menos vezes ansioso.

Este momento de permanência prolongada em casa, com alteração de rotinas e redução substancial da atividade física ou aumento do comportamento sedentário pode ser prejudicial para a saúde. “Os nossos resultados mostram que é essencial que se divulguem, de forma clara e simples, estratégias de promoção de comportamentos saudáveis, do bem-estar e da qualidade de vida, nomeadamente na área da alimentação saudável e promoção da atividade física” – salienta a investigadora.

 

 

Um olhar atento sobre o que fazem as mulheres de diferente dos homens realça que são mais elas que mantêm contacto com a família e amigos, mesmo que à distância, que procuram manter rotinas e que limitam a quantidade de informação que veem sobre COVID-19. Contudo, também são elas que afirmam consumir mais alimentos hipercalóricos. Os homens aproveitam, mais do que as mulheres, o tempo em casa também para fazerem coisas de que gostam.

 

 

Os dados revelam ainda que os inquiridos que pertencem a grupos profissionais em maior risco, como profissionais de saúde, mas também forças de segurança, meios de socorro, operadores de supermercado, entre outros, não diferem dos restantes no que diz respeito à frequência com que se sentem agitados, ansiosos, em baixo ou tristes. “Este foi um aspeto que surpreendeu a nossa equipa de investigação, pelo que merece um aprofundamento nas próximas análises. Será que, embora estas pessoas estejam expostas a contextos mais adversos, o facto de se sentirem ativas e produtivas pode contribuir para uma maior resiliência à ansiedade e tristeza?”, refere ainda Sónia Dias.

Os resultados, em relação à forma como como os portugueses estão a desenvolver a sua atividade profissional, mostram que, dos participantes que reportam sentir-se ansiosos “todos os dias”, 35% são trabalhadores que estão em teletrabalho, 23% suspenderam a sua atividade profissional e apenas 9% está a trabalhar no local de trabalho.

Uma interpretação possível para estas diferenças prende-se com o facto de as pessoas em teletrabalho poderem estar a experienciar dificuldades em gerir a sua atividade profissional em simultâneo com a vida pessoal e familiar. Por outro lado, as pessoas que suspenderam a atividade estarão preocupadas com a possível perda de rendimento”, esclarece a coordenadora.

 

 

Finalmente, o facto de as pessoas terem ou não apoio entre os seus familiares, conhecidos ou na sua comunidade para adquirir bens alimentares, produtos de farmácia, entre outros, em caso de necessidade, parece também influenciar a forma como se sentem em tempos de COVID-19. Cerca de um terço das pessoas que refere não ter este apoio sente-se ansioso ou em baixo “todos os dias” ou “quase todos os dias”, mais do que os que reportam ter esse apoio.

 

Consulte

Ficha do Questionário Opinião Social | Opinião Social no Diário de Notícias (Semana 3)

 

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