1 mês de confinamento: o que mudou nas perceções dos portugueses?

Ao fim de 4 semanas e com 166.886 questionários respondidos, a equipa do Opinião Social do Barómetro Covid-19 analisou a evolução da perceção das pessoas ao longo de um mês de confinamento social. Os portugueses estão a adaptar-se aos fatores diretamente relacionados com a Covid-19, mas a sentir dificuldades em gerir a vida quotidiana de confinamento em casa.

Perceção individual do risco de contrair Covid-19

A perceção individual do risco de contrair COVID-19 sofreu uma alteração notória, com uma diminuição de cerca de 25% da proporção de pessoas que considera ter um “risco elevado” (Sem1: 20,6%; Sem4: 15,5%). Da mesma forma é evidente uma variação de mais 21% no grupo das pessoas que consideram ter um “risco baixo” (Sem1: 33,4%; Sem4: 40,3%).

A equipa de investigação considera que a adaptação das pessoas a uma nova vida em confinamento pode ser uma explicação para esta alteração. “Houve um grande esforço de todos para integrarem, nas suas rotinas diárias, novos comportamentos de proteção. Hoje em dia, com estas medidas mais rotinadas e com mais informação disponível sobre a Covid-19 e, as pessoas podem estar a sentir-se mais capazes e confiantes para gerir esta situação, percecionando um menor risco”, avança Sónia Dias, coordenadora científica do Opinião Social.

Outra possível explicação para uma diminuição generalizada da perceção de risco individual em contrair COVID-19 pode estar no aumento do nível de confiança na capacidade de resposta do governo e dos serviços de saúde. “Mesmo entre as pessoas que consideram atualmente ter um “risco elevado” de contrair COVID-19, a grande maioria está “confiante” ou “muito confiante” na capacidade de resposta do governo (83,9%) e na dos serviços de saúde (81,4%) à pandemia provocada pela COVID-19” – explica a investigadora.

 

Confiança na capacidade de resposta do Governo

Com o passar das semanas assiste-se também a um crescimento do nível de confiança das pessoas no que diz respeito à capacidade de resposta do governo à pandemia provocada pela COVID-19. Se no início 7,5% das pessoas estava “muito confiante”, ao longo das semanas esta proporção aumentou para mais do dobro (16,2%). Estes resultados são também reforçados pelo facto de, na primeira semana, cerca de um terço (30,6%) referir estar “pouco confiante” na capacidade de resposta do governo, quando atualmente apenas 14,3% das pessoas o refere.

 

De destacar que são os idosos quem continua a referir maior nível de confiança na capacidade de resposta do governo (atualmente 30,9% refere estar “muito confiante” comparativamente com 12% dos jovens entre os 16 e 25 anos) e que o aumento da confiança, ao longo das semanas, foi também mais significativo neste grupo.

 

Adequação das medidas implementadas

Quanto à adequação das medidas implementadas pelo governo no combate à pandemia provocada pela Covid-19, é de salientar que a proporção de pessoas que reporta considerar estas medidas “pouco ou nada adequadas” diminuiu para sensivelmente um terço entre a primeira e última semanas analisadas (de 25,2% para 9,8%).

Sabe-se que a escolaridade está relacionada com a capacidade de aceder e interpretar informação de saúde. Quando se analisa a evolução da perceção da adequação das medidas e o nível de confiança na capacidade de resposta do governo, por nível de escolaridade, os dados revelam que houve um aumento mais significativo desta perceção nos grupos que reportaram não ter ensino superior. “O que pode significar que, atualmente, a generalidade das pessoas sabe mais sobre como prevenir e conter a transmissão da COVID-19 e, por consequência, compreendem melhor a adequação das medidas adotadas”, esclarece Sónia Dias.

Ainda dentro deste tema, uma análise mais fina da perceção da adequação das medidas com o seu impacto na atividade profissional, revela que quem está atualmente em teletrabalho, com o passar das semanas, aumenta consideravelmente a sua perceção de adequação das medidas implementadas pelo governo (Sem1: 12,5% “muito adequadas”; Sem3: 27,2% “muito adequadas”). Mesmo as pessoas que suspenderam a sua atividade neste período reportaram uma crescente perceção da adequação das medidas (Sem1: 9% “muito adequadas”; Sem3: 21,3% “muito adequadas”).

 

 

Confiança na capacidade de resposta dos serviços de saúde

Acompanhando a evolução do nível de confiança na capacidade de resposta do governo, também no que diz respeito ao nível de confiança na capacidade de resposta dos serviços de saúde se observa um aumento, com a proporção de pessoas que referiu estar “muito confiante” ter quase duplicado, de 9,4% na primeira semana para 17% na última semana. No mesmo sentido, a percentagem de pessoas que referem atualmente estar “pouco ou nada confiantes” diminuiu para metade (de 36,4% para 18,7%).

No entanto, em contraste com o que se verifica no nível de confiança na capacidade de resposta do governo, quando se aprofunda a análise do nível de confiança na capacidade dos serviços de saúde, as diferenças entre homens e mulheres são notórias desde a semana 1, com 8,7% das mulheres e 10,6% dos homens a reportar estar “muito confiantes”. Com o passar das semanas, esta diferença evidencia-se mais, com 15,3% das mulheres e 21,2% dos homens a reportar estar “muito confiantes”.

 

 

Sentimentos de agitação, ansiedade ou tristeza

Um aspeto de realçar prende-se com o facto de, apesar do nível de confiança na capacidade de resposta das entidades de saúde ter aumentado e a perceção de risco individual ter diminuído com o passar das semanas, a frequência com que as pessoas reportam sentir-se agitadas, ansiosas, em baixo ou tristes mantem-se constante ao longo das semanas, sempre com cerca de 80% a reportar já se ter sentido assim e de 9% a reportar senti-lo diariamente.

“Esta ansiedade pode estar mais ligada a aspetos de caráter individual e de gestão da vida quotidiana em casa, resultantes das medidas de confinamento, do que propriamente com os aspetos relacionados com a doença em si ou com a resposta das entidades de saúde. Pelo que importa fazer chegar às pessoas estratégias concretas para gerirem melhor a sua vida laboral em simultâneo com a vida familiar, por exemplo”, adverte Sónia Dias.

 

 

Sair de casa apenas em caso de absoluta necessidade

Ao longo das últimas 4 semanas não houve alteração no padrão geral da frequência com que as pessoas reportam ter saído de casa nas duas semanas anteriores, com uma grande maioria a referir semanalmente ter saído de casa apenas alguns dias ou nunca.

Contudo denota-se, entre a semana 1 e a semana 4, uma redução de cerca de 20% na proporção de pessoas que saem de casa “todos os dias”. Quando se analisa a frequência com que saiu de casa, são os homens que se destacam (11,4% dos homens, comparativamente a 6,3% das mulheres, saem de casa “todos os dias”), bem como as pessoas com idades compreendidas entre os 46 e os 65 anos (10,9% comparativamente a 4,3% dos jovens com idades entre os 16 e os 25 anos e a 6,9% dos idosos saem de casa “todos os dias”).

Como expectável, são as pessoas que desenvolvem a sua atividade profissional no local de trabalho (29,2% com contacto com o público e/ou colegas e 24% sem contacto), comparativamente com 4,2% das pessoas que estão em teletrabalho, que saem de casa “todos os dias”.

 

 

Expectativa de voltar à normalidade

Os dados revelam também a perceção que as pessoas têm de que o tempo em que as medidas de confinamento social irão vigorar aumentou, provavelmente reflexo dos prolongamentos do estado de emergência decretados ao longo destas semanas.

 

 

Quando questionadas sobre quando é que a sua vida vai voltar à normalidade, na primeira semana cerca de 40% dos respondentes estimava que tal aconteceria ao fim de 2 meses. Decorrido um mês, uma proporção significativa considera que a sua vida vai voltar à normalidade num período de 2 meses. Um aspeto importante a salientar que se verifica é que, ao longo das semanas, cerca de 20% dos respondentes não têm ideia de quando a sua vida voltará à normalidade.

“Estes são tempos de incerteza e é fundamental continuar a acompanhar como as pessoas vivem, pensam e sentem esta nova realidade. Ainda mais quando se prevê, num futuro próximo, novas medidas que vão influenciar significativamente as nossas vidas”, conclui Sónia Dias.

 

CONSULTE

Ficha do Questionário Opinião Social | Opinião Social no Diário de Notícias (Semana 4)

 

FIQUE A PAR DOS RESULTADOS DO OPINIÃO SOCIAL

Semana 3 | Como se sentem os Portugueses em tempos de pandemia?
Semana 2 | Perceção individual do risco de contrair Covid-19
Semana 1 | Quem está em casa, saindo somente em situação de absoluta necessidade?